sexta-feira, 26 de maio de 2017

Regresso a casa




Um ano inteiro não será suficiente para tudo o que me aconteceu.
Mas aprendi tanto!
Gosto desta minha casa e de todos os amigos de sempre. 
Mais uma etapa que se cumpre.
Amanhã quem sabe voltarei a escrever?
Desculpem a ausência e por não vos ler.

HHoje 

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Desumanização


Quando empedernir, o coração, esquecido de toda a humidade da vida, ficará entre as loiças, como inútil souvenir ou peça de mesa para uma festa que nunca acontecerá.
Terei sempre pena dele. Estará como um animal antigo que perdeu a qualidade dos novos dias. 

Sem visitas. Será apenas a humilhação entristecedora de todos os afectos.
Poderei, nas arrumações, preparando alguma partida, aligeirando o fardo, deixá-lo no lixo para que a natureza o recicle com a suas ganas aturadas de recomeçar tudo. 

Até lá, a minha coragem assume apenas a evidência de que somos matéria morrendo. 
Começarei morrendo pelo coração.

Valter Hugo Mãe

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

A que horas despertas?

A que horas te apercebes que a casa está vazia,
que a vida está desamparada e a alma reclama
qual animal abandonado.
A tua voz não se faz ouvir
As paredes nada respondem
Recuo no tempo e nas memórias,
essas, as alegres, estão tão distantes.
A casa está agora vazia
Retorno e retomo o presente,
o que nos une desprende-se agora
e ecoa pela casa.
Sinto que estou de partida,
a dimensão que me move pede que avance,
Mas a casa continua vazia.


HHoje 2016

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

Doçura dos dias

É sempre o Amor
que nos transforma os dias,
que nos segura as asas.

A todos desejo um santo Natal

HHoje

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

Terra Mãe

À distância o Agosto fazia adivinhar e sonhar, que voltaríamos a atravessar o Marão para lá dos que cá estão.
Nos dias de estio mais longos, as pedras do casario da aldeia alindavam-se, pressentiam que nos iriam receber depois de um longo ano da ausência.
E o Verão acontecia.
A correria logo pela madrugada junto aos lameiros de um verde estonteante, dos castanheiros, o cheiro do pão que pairava no ar e nos chamava de volta a casa, qualquer casa, pois todas as casas eram família.
A aldeia sorria de tanta felicidade e de casas habitadas com os que regressavam com o coração a chamar pela terra, os tios, os irmãos, os primos, todos sentiam esse estranho mas delicioso chamamento da terra, da luz, do sangue e iam chegando, vindos de longe, de muitos e longínquos lugares para onde um dia tiveram de partir.
Era Agosto, era vida, era saudade na primeira pessoa. Todos sentiam mas ninguém falava, apenas contavam os minutos que estaríamos juntos, para construir mais memórias.
Era Agosto e a Senhora do Monte, lá no alto esperando a romaria, como se soubesse que renovaria a esperança que nos guia para mais um ano caminhando longe de casa.

Tenho saudades tuas, Terra Mãe.

HHoje

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Reality?

Em todas as almas há coisas secretas cujo segredo é guardado até à morte delas. E são guardadas, mesmo nos momentos mais sinceros, quando nos abismos nos expomos, todos doloridos, num lance de angústia, em face dos amigos mais queridos - porque as palavras que as poderiam traduzir seriam ridículas, mesquinhas, incompreensíveis ao mais perspicaz. 
Estas coisas são materialmente impossíveis de serem ditas. 
A própria Natureza as encerrou - não permitindo que a garganta humana pudesse arranjar sons para as exprimir - apenas sons para as caricaturar. E como essas ideias-entranha são as coisas que mais estimamos, falta-nos sempre a coragem de as caricaturar. 
Daqui os «isolados» que todos nós, os homens, somos. 
Duas almas que se compreendam inteiramente, que se conheçam, que saibam mutuamente tudo quanto nelas vive - não existem. Nem poderiam existir. No dia em que se compreendessem totalmente - ó ideal dos amorosos! - eu tenho a certeza que se fundiriam numa só. 
E os corpos morreriam.


Mário de Sá-Carneiro

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Talvez sem mais

Uma cortina desceu sobre o meu olhar,
sobre a minha Alma.
Se me virem assim neste segundo acto,
carrego um peso sem espaço
onde adormeço.
Uma ilha sem lugar que me pertença.
É tão fácil gostar de ti... disseste
Assombração sem revelação.
Traz-me o chão.
HHoje 

terça-feira, 1 de novembro de 2016

Novembro

"(...) o hábito precoce da solidão é um bem infinito. 
Ensina-nos, apenas em parte, a não precisar das pessoas. 
Ensina-nos também a amar mais os seres."
Marguerite Yourcenar

domingo, 30 de outubro de 2016

Se morresse, perguntavas, porque não me telefonaste?


Não há motivo para te importunar a meio da noite, 
como não há leite no frigorífico, nem um limite
traçado para a solidão doméstica.

Tudo desaparece. Nada desaparece. Tudo desaparece
antes de ser dito e tu queres dormir descansada.
Tens direito a um subsídio de paz.

Se eu escrever um poema, esse não é motivo para te
importunar. Eu escrevo muitos poemas e tu trabalhas
de manhã cedo.

Toda a gente sabe que a noite é longa. Não tenho o
o direito de telefonar para te dizer isso, apesar dessa
evidência me matar agora.

E morro, mas não morro. Se morresse, perguntavas:
porque não me telefonaste? Se telefonasse, perguntavas:
sabes que horas são?

Ou não atendias. E eu ficava aqui. Com a noite ainda
mais comprida, com a insónia, com as palavras
a despegarem-se dos pesadelos.

José Luís Peixoto

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Já nem me lembro quando voltei deste texto

De partida pelas estradas,
não vai ao encontro de ninguém senão dela própria.
Antes de morrer importa ao menos dar a volta à sua prisão.
Os contornos interiores confundem-se com os limites do mundo,
e é percorrendo este último que se encontra a melhor metáfora para a sua própria morte.
Os confins podem sempre reduzir-se aos muros de uma verdadeira masmorra.
O fim só pode ser vivido enquanto a consciência subsiste.
Cada momento impõe a experiência necessária da morte,
desperta a agonia, que é o nosso único estado permanente,
aquele que o hábito do sedentário se esforça por ocultar.
Aquele que viaja, está assim mais próximo da verdade, é amigo da morte.
Aquele que está sempre de partida reconhece a realidade do seu corpo como a de um mero saco de viagem.
Sempre em movimento.

HHoje 

terça-feira, 14 de junho de 2016

O vento levou a esperança na mesa da esplanada

O amor de alguém é um presente tão inesperado e tão pouco merecido
que devemos espantar-nos que não no-lo retirem mais cedo.
Não estou inquieto por aqueles que ainda não conheces,
ao encontro de quem vais e que porventura te esperam:
aquela que eles vão conhecer será diferente daquela
que eu julguei conhecer e creio amar.
Não se possui ninguém (mesmo os que pecam não o conseguem) e,
sendo a arte a única forma de posse verdadeira,
o que importa é recriar um ser e não prendê-lo.

MY

segunda-feira, 13 de junho de 2016

Mudança

À força de me mudar
aprendi a não encostar
os móveis às paredes,
a não pregar muito fundo,
a aparafusar apenas o necessário.
Aprendi a respeitar os rastos
dos antigos inquilinos:
um prego, uma moldura,
uma pequena poleia,
que ficou no seu lugar
embora me estorvem.
Há manchas que herdo
sem as limpar,
entro na nova casa
procurando entender,
mais do que isso,
vendo por onde haverei de me ir embora.
Deixo que a mudança
se dissolva como uma febre,
como uma crosta que cai,
não quero fazer barulho.
Porque os antigos inquilinos
nunca morrem.
Quando vamos embora,
quando deixamos outra vez
as paredes como as encontrámos,
fica sempre um prego deles
nalgum canto
ou um estrago
que não soubemos resolver.

FMorábito

sábado, 28 de maio de 2016

A preto e branco

Fazer amor não existe, porra , o amor não se faz.
O amor desaba sobre nós já feito, não o controlamos - por isso o sistema se cansa 
tanto a substituí-lo pelo sexo, coisa gráfica, aparentemente moldável.
Também não era , fornicar, copular - essas palavras violentas com que tentamos rebentar o amor.
Como se fosse possível.
Como se o amor não fosse exactamente essa fornicação metafísica que não nos diz respeito
- sofremos-lhe apenas os estilhaços, que nos roubam vida e vontade.
Eu queria oferecer-te o meu corpo para que o absorvesses no teu.
Para que me fizesses desaparecer nos teus ossos.

Inês Pedrosa

terça-feira, 24 de maio de 2016

Bleeding heart


Se escrevo alguma coisa, temo que ela aconteça, 
se amo demais alguma pessoa, tenho medo de perdê-la; 
no entanto, não posso deixar de escrever, nem de amar...


Isabel Allende

quinta-feira, 19 de maio de 2016

quarta-feira, 18 de maio de 2016

Mas chegarei

Não sei como ir da minha vida à tua rua,
a tua rua cheia de perguntas,
a minha vida estranha sem respostas.
Mas chegarei...
Porque tu me chamas.

Belén Sánchez

domingo, 15 de maio de 2016

Sabes filha, és o fruto da minha lucidez.

Recomeça...
Se puderes, 
Sem angústia e sem pressa. 
E os passos que deres, 
Nesse caminho duro 
Do futuro, 
Dá-os em liberdade. 
Enquanto não alcances 
Não descanses. 
De nenhum fruto queiras só metade. 

E, nunca saciado, 
Vai colhendo 
ilusões sucessivas no pomar. 
Sempre a sonhar 
E vendo, 
Acordado, 
O logro da aventura. 
És homem, não te esqueças! 
Só é tua a loucura 
Onde, com lucidez, te reconheças… 

Miguel Torga

Foto- Carvão s/papel de Adriana Felgueiras

quarta-feira, 11 de maio de 2016

Tosca ou lírica

O que eu não consigo transformar em algo de maravilhoso, 
deixo ir. 
A realidade não me impressiona. 
Apenas acredito na intoxicação, 
no êxtase e quando a vida normal me aprisiona, 
eu fujo de uma forma ou de outra. 

Chega de paredes.


Anais Nin