sábado, 18 de abril de 2015

Os ratos roem nos caixotes os restos do dia morto

Duas horas da manhã. Os ratos roem nos caixotes os restos do dia morto.
A cidade pertence aos fantasmas, aos assassinos, aos sonâmbulos.
Onde estás? em que leito? em que sonho?
Se te encontrasse, tu passarias sem me ver pois não somos vistos pelos nossos sonhos.
Não tenho fome: esta noite não consigo digerir a minha vida.
Estou cansada: caminhei toda a noite para semear a tua recordação.
Não tenho sono: nem sequer tenho apetite da morte.
Sentada num banco, entorpecida contra vontade pela aproximação da manhã, 
deixo de me lembrar que te procuro esquecer.
Fecho os olhos... os ladrões não querem senão os nossos anéis, os amantes a carne, 
os pregadores a alma, os assassinos a vida.
Podem tirar-me a minha: desafio-os a que tentem mudá-la.
Deixo tombar a cabeça para poder sentir abaixo de mim a agitação das folhas...
Estou num bosque, num campo...
É a hora em que o Tempo se disfarça de varredor e Deus talvez em trapeiro.
Ele o avaro, ele o obstinado, ele que não permite que se perca uma pérola num amontoado de conchas de ostras às portas das tabernas.
Pai nosso que estais no céu... Verei algum dia sentar-se a meu lado um velho de sobretudo castanho, com os pés enlameados por ter atravessado, para se me juntar, sabe Deus que rio?
Deixar-se-ia desabar sobre o banco, guardando na mão fechada um presente precioso capaz de tudo mudar. Abriria os dedos devagar, um após outro, com a maior prudência, porque se trata de qualquer coisa que se evapora...
Que traria ele? 
Um pássaro, uma semente, uma faca, uma chave para abrir a caixa que conserva o coração?


Marguerite Yourcenar

quarta-feira, 15 de abril de 2015

Neste meu mundo nada obscuro


Disseram-me que fosse dócil.
Passiva e progressiva,
Que me bastava não ter sede
Que me anulasse sem vida.
Disseram-me que poucos beijos bastavam,
pois de que serviria querer mais…
Colher um agora, outro depois
e que isso me bastaria.
Ah doce ilusão dos que sabem!

Agora que o meu corpo está livre de ti,
atrapalham-me  os dias as lembranças doutros tempos.
Sai sem deixar rasto algum, 
não quero pistas
não quero festas 
não quero palavras ocas

pois nunca me achaste neste meu mundo, nada obscuro.

HHoje

domingo, 12 de abril de 2015

Curva

Antes não nos pesava
O passado, colhíamos os dias
Ainda verdes, a frescura da sua polpa
Na vontade dos nossos dedos.

Depois vieram os sinais
dos primeiros cansaços sem remédio,
a noite fincou-se nas pedras,
fez-se de estorvos.

Aquilo que sobrou de ti
cabe-me nos bolsos
e é pouco para as minhas mãos.

 Rui Pires Cabral

quinta-feira, 9 de abril de 2015

Enrolo-me

Quando não estás.!
Traço o teu rosto na minha imaginação
Teço as tuas meias da cor alegre dos teus olhos,
Visto-me de alegria quando povoo os meus pensamentos de ti.
Enrolo-me de ti na manta dos meus retalhos,
Para ficarmos inteiros.
O meu coração é uma aldeia colorida
Quando não estás !!

HHoje 

quinta-feira, 2 de abril de 2015

Um quarto, por vezes dois.

"Nós somos casas muito grandes, muito compridas. 
É como se morássemos apenas num quarto ou dois. 
Às vezes, por medo ou cegueira, não abrimos as nossas portas."

António Lobo Antunes