quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Talvez sem mais

Uma cortina desceu sobre o meu olhar,
sobre a minha Alma.
Se me virem assim neste segundo acto,
carrego um peso sem espaço
onde adormeço.
Uma ilha sem lugar que me pertença.
É tão fácil gostar de ti... disseste
Assombração sem revelação.
Traz-me o chão.
HHoje 

terça-feira, 1 de novembro de 2016

Novembro

"(...) o hábito precoce da solidão é um bem infinito. 
Ensina-nos, apenas em parte, a não precisar das pessoas. 
Ensina-nos também a amar mais os seres."
Marguerite Yourcenar

domingo, 30 de outubro de 2016

Se morresse, perguntavas, porque não me telefonaste?


Não há motivo para te importunar a meio da noite, 
como não há leite no frigorífico, nem um limite
traçado para a solidão doméstica.

Tudo desaparece. Nada desaparece. Tudo desaparece
antes de ser dito e tu queres dormir descansada.
Tens direito a um subsídio de paz.

Se eu escrever um poema, esse não é motivo para te
importunar. Eu escrevo muitos poemas e tu trabalhas
de manhã cedo.

Toda a gente sabe que a noite é longa. Não tenho o
o direito de telefonar para te dizer isso, apesar dessa
evidência me matar agora.

E morro, mas não morro. Se morresse, perguntavas:
porque não me telefonaste? Se telefonasse, perguntavas:
sabes que horas são?

Ou não atendias. E eu ficava aqui. Com a noite ainda
mais comprida, com a insónia, com as palavras
a despegarem-se dos pesadelos.

José Luís Peixoto

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Já nem me lembro quando voltei deste texto

De partida pelas estradas,
não vai ao encontro de ninguém senão dela própria.
Antes de morrer importa ao menos dar a volta à sua prisão.
Os contornos interiores confundem-se com os limites do mundo,
e é percorrendo este último que se encontra a melhor metáfora para a sua própria morte.
Os confins podem sempre reduzir-se aos muros de uma verdadeira masmorra.
O fim só pode ser vivido enquanto a consciência subsiste.
Cada momento impõe a experiência necessária da morte,
desperta a agonia, que é o nosso único estado permanente,
aquele que o hábito do sedentário se esforça por ocultar.
Aquele que viaja, está assim mais próximo da verdade, é amigo da morte.
Aquele que está sempre de partida reconhece a realidade do seu corpo como a de um mero saco de viagem.
Sempre em movimento.

HHoje 

terça-feira, 14 de junho de 2016

O vento levou a esperança na mesa da esplanada

O amor de alguém é um presente tão inesperado e tão pouco merecido
que devemos espantar-nos que não no-lo retirem mais cedo.
Não estou inquieto por aqueles que ainda não conheces,
ao encontro de quem vais e que porventura te esperam:
aquela que eles vão conhecer será diferente daquela
que eu julguei conhecer e creio amar.
Não se possui ninguém (mesmo os que pecam não o conseguem) e,
sendo a arte a única forma de posse verdadeira,
o que importa é recriar um ser e não prendê-lo.

MY

segunda-feira, 13 de junho de 2016

Mudança

À força de me mudar
aprendi a não encostar
os móveis às paredes,
a não pregar muito fundo,
a aparafusar apenas o necessário.
Aprendi a respeitar os rastos
dos antigos inquilinos:
um prego, uma moldura,
uma pequena poleia,
que ficou no seu lugar
embora me estorvem.
Há manchas que herdo
sem as limpar,
entro na nova casa
procurando entender,
mais do que isso,
vendo por onde haverei de me ir embora.
Deixo que a mudança
se dissolva como uma febre,
como uma crosta que cai,
não quero fazer barulho.
Porque os antigos inquilinos
nunca morrem.
Quando vamos embora,
quando deixamos outra vez
as paredes como as encontrámos,
fica sempre um prego deles
nalgum canto
ou um estrago
que não soubemos resolver.

FMorábito

sábado, 28 de maio de 2016

A preto e branco

Fazer amor não existe, porra , o amor não se faz.
O amor desaba sobre nós já feito, não o controlamos - por isso o sistema se cansa 
tanto a substituí-lo pelo sexo, coisa gráfica, aparentemente moldável.
Também não era , fornicar, copular - essas palavras violentas com que tentamos rebentar o amor.
Como se fosse possível.
Como se o amor não fosse exactamente essa fornicação metafísica que não nos diz respeito
- sofremos-lhe apenas os estilhaços, que nos roubam vida e vontade.
Eu queria oferecer-te o meu corpo para que o absorvesses no teu.
Para que me fizesses desaparecer nos teus ossos.

Inês Pedrosa