quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Desumanização


Quando empedernir, o coração, esquecido de toda a humidade da vida, ficará entre as loiças, como inútil souvenir ou peça de mesa para uma festa que nunca acontecerá.
Terei sempre pena dele. Estará como um animal antigo que perdeu a qualidade dos novos dias. 

Sem visitas. Será apenas a humilhação entristecedora de todos os afectos.
Poderei, nas arrumações, preparando alguma partida, aligeirando o fardo, deixá-lo no lixo para que a natureza o recicle com a suas ganas aturadas de recomeçar tudo. 

Até lá, a minha coragem assume apenas a evidência de que somos matéria morrendo. 
Começarei morrendo pelo coração.

Valter Hugo Mãe

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

A que horas despertas?

A que horas te apercebes que a casa está vazia,
que a vida está desamparada e a alma reclama
qual animal abandonado.
A tua voz não se faz ouvir
As paredes nada respondem
Recuo no tempo e nas memórias,
essas, as alegres, estão tão distantes.
A casa está agora vazia
Retorno e retomo o presente,
o que nos une desprende-se agora
e ecoa pela casa.
Sinto que estou de partida,
a dimensão que me move pede que avance,
Mas a casa continua vazia.


HHoje 2016

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

Doçura dos dias

É sempre o Amor
que nos transforma os dias,
que nos segura as asas.

A todos desejo um santo Natal

HHoje

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

Terra Mãe

À distância o Agosto fazia adivinhar e sonhar, que voltaríamos a atravessar o Marão para lá dos que cá estão.
Nos dias de estio mais longos, as pedras do casario da aldeia alindavam-se, pressentiam que nos iriam receber depois de um longo ano da ausência.
E o Verão acontecia.
A correria logo pela madrugada junto aos lameiros de um verde estonteante, dos castanheiros, o cheiro do pão que pairava no ar e nos chamava de volta a casa, qualquer casa, pois todas as casas eram família.
A aldeia sorria de tanta felicidade e de casas habitadas com os que regressavam com o coração a chamar pela terra, os tios, os irmãos, os primos, todos sentiam esse estranho mas delicioso chamamento da terra, da luz, do sangue e iam chegando, vindos de longe, de muitos e longínquos lugares para onde um dia tiveram de partir.
Era Agosto, era vida, era saudade na primeira pessoa. Todos sentiam mas ninguém falava, apenas contavam os minutos que estaríamos juntos, para construir mais memórias.
Era Agosto e a Senhora do Monte, lá no alto esperando a romaria, como se soubesse que renovaria a esperança que nos guia para mais um ano caminhando longe de casa.

Tenho saudades tuas, Terra Mãe.

HHoje

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Reality?

Em todas as almas há coisas secretas cujo segredo é guardado até à morte delas. E são guardadas, mesmo nos momentos mais sinceros, quando nos abismos nos expomos, todos doloridos, num lance de angústia, em face dos amigos mais queridos - porque as palavras que as poderiam traduzir seriam ridículas, mesquinhas, incompreensíveis ao mais perspicaz. 
Estas coisas são materialmente impossíveis de serem ditas. 
A própria Natureza as encerrou - não permitindo que a garganta humana pudesse arranjar sons para as exprimir - apenas sons para as caricaturar. E como essas ideias-entranha são as coisas que mais estimamos, falta-nos sempre a coragem de as caricaturar. 
Daqui os «isolados» que todos nós, os homens, somos. 
Duas almas que se compreendam inteiramente, que se conheçam, que saibam mutuamente tudo quanto nelas vive - não existem. Nem poderiam existir. No dia em que se compreendessem totalmente - ó ideal dos amorosos! - eu tenho a certeza que se fundiriam numa só. 
E os corpos morreriam.


Mário de Sá-Carneiro

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Talvez sem mais

Uma cortina desceu sobre o meu olhar,
sobre a minha Alma.
Se me virem assim neste segundo acto,
carrego um peso sem espaço
onde adormeço.
Uma ilha sem lugar que me pertença.
É tão fácil gostar de ti... disseste
Assombração sem revelação.
Traz-me o chão.
HHoje